Servo bom e fiel, palavras de Jesus Cristo no Evangelho que João Paulo II aplicava a D. Álvaro del Portillo.
No telegrama que João Paulo II me enviou ao receber a notícia do falecimento imprevisto de D. Álvaro del Portillo, o Papa aplicava ao meu predecessor as palavras de Jesus Cristo no Evangelho: servo bom e fiel. Com ânimo agradecido ao Senhor, o Santo Padre recordava “a vida sacerdotal e episcopal diligente de D. Álvaro, o exemplo de fortaleza e de confiança na Providência Divina que constantemente patenteou, bem como a sua fidelidade à sede de Pedro e o seu serviço eclesial generoso”.
Poucos dias antes de ser chamado à presença de Deus, D. Álvaro del Portillo reflectia sobre a virtude da fidelidade. Decorriam os dias de oração nos Lugares Santos, onde D. Álvaro seguiu com piedade as pegadas de Jesus. Entre as mensagens que enviou da Terra Santa a diversas pessoas, havia uma dirigida ao Secretário de João Paulo II, D. Stanislaw Dziwisz, cuja leitura adquire hoje especial importância. Cito este episódio com a autorização explícita do destinatário do postal.
Com o pedido de que transmitisse ao Papa a sua profunda união e fidelidade, D. Álvaro escrevia: Estimado amigo: nestes santos lugares rezei – rezámos – muito por si, vir fidelis, e com a súplica de que queira apresentar ao Santo Padre o nosso desejo de sermos fideles usque ad mortem, no serviço à Santa Igreja e ao Santo Padre.
Fidelidade a Deus, em primeiro lugar. Nascido e ducado no seio de uma família profundamente cristã, D. Álvaro aprendeu dos pais um modo de actuar em plena consonância com a fé recebida. Com naturalidade, sem hipocrisias, soube aliar as actividades normais de um jovem – estudo, desporto, amizade, etc. – a uma piedade sincera e profunda. Deus preparava-o assim para o encontro com São Josemaria Escrivá, que teve lugar quando D. Álvaro tinha 21 anos, e que iria dar pleno sentido à sua vida.
Desde então, com a ajuda da graça, sob a orientação directa do Fundador do Opus Dei, D. Álvaro empenhou-se com todas as suas forças na realização da missão que a Providência quis para ele: aprender de São Josemaria o espírito do Opus Dei, convertê-lo em vida da sua vida, e transmiti-lo depois com extraordinária fidelidade a muitas outras pessoas.
Álvaro del Portillo antes da ordenação sacerdotal, em 1944
Inseparável da fidelidade a Deus é a fidelidade de D. Álvaro del Portillo à Igreja e ao Romano Pontífice. Neste sentido falam por si tantos anos de serviço à Santa Sé que começaram quando da sua chegada a Roma em 1946 e continuaram até à sua morte. Durante quase cinquenta anos, de diferentes modos, D. Álvaro não poupou esforços para servir da melhor maneira a Igreja, o Romano Pontífice e todas as almas.
Desde os primeiros encargos que teve nos departamentos da Santa Sé, até à intervenção nos trabalhos do Concílio Vaticano II e à participação em Sínodos de Bispos, a sua trajectória nestes longos anos romanos caracterizou-se por um serviço fecundo e silencioso à Igreja e ao Papa. Nunca dizia que não quando lhe era pedida a sua colaboração. Acolhia a todos com um sorriso e uma paz que eram refrigério para os outros.
Esta fidelidade à Igreja e ao Romano Pontífice adquiria nova luz em momentos singulares. Especialmente quando o Santo Padre exprimia os seus desejos relacionados com a nova evangelização que devia levar-se a cabo nos países de antiga tradição cristã. Ou quando o próprio Romano Pontífice manifestava a sua preocupação em relação à paz em diversas partes do mundo.
Um homem fiel
Não é possível falar agora de tantas respostas de D. Álvaro del Portillo. Mas todos recordamos gestos concretos de apoio e de solidariedade, cheios de dedicação e lealdade para com o Santo Padre. Como quis recordar há uns dias, na sessão de abertura do tribunal da Prelatura instituído para seguir a Causa de canonização, a conduta de D. Álvaro inspirou-se sempre no lema que tinha aprendido de São Josemaria: “fazer o ruído de três e o trabalho de três mil”.
Ante o nosso olhar temos um luminoso exemplo de fidelidade à vocação no desempenho das tarefas que Deus confia a cada pessoa. D. Álvaro colocou todas as suas qualidades humanas e sobrenaturais – e eram muitas para falar verdade – ao serviço da missão que tinha recebido.
Hoje, ao recordar no altar este servo de Deus bom e fiel, convido-vos a recorrer de modo privado à sua intercessão. Queira o Senhor que também na nossa existência corrente resplandeça – como em D. Álvaro – a virtude humana e cristã da fidelidade. É uma possibilidade ao alcance de todos, com o auxílio divino, se nos decidimos a converter-nos, em dia, nas coisas grandes e nas pequenas, porque tudo é grande quando se faz por amor de Deus.
Sigamos, pois, o ensinamento de São Josemaria numa das suas homilias: “Quando se deseja sinceramente viver da Fé, do Amor e da Esperança, a renovação da entrega não consiste em retomar uma coisa que tinha entrado em desuso. Quando há Fé, Amor e Esperança, renovar-se - apesar dos nossos erros pessoais, das quedas, das debilidades - é manter-se nas mãos de Deus: confirmar um caminho de fidelidade. Renovar a entrega é renovar, repito, a fidelidade àquilo que o Senhor quer de nós: amar com obras”.
Confiamos estes propósitos à Virgem Maria, Virgo fidelis, e ao seu esposo São José. Com a sua intercessão também nós seremos fiéis à nossa vocação cristã. E seremos felizes, porque, como São Josemaria afirma, fidelidade é sinónimo de felicidade: felicidade aqui na terra, com os limites da nossa actual condição, e felicidade completa no Céu.
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